Na boca da mata da Areia Branca
- Aug 26
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Uma crônica sobre o Velho Graça, o Cotinguiba e o lugar onde eu me criei

Eu poderia contar a minha história através de rios, pois eles serpenteiam, e balizam todo o estado de Sergipe, assim como também correm por mim.
Eu em Aracaju, mas numa cidade-cemitério cujo nome é sugestivo: Areia Branca, localizada no interior do estado, aos pés da Serra de Itabaiana. Mas, saímos da terra e voltemos aos rios. O Cotinguiba vê a luz pela primeira vez todos os dias neste território - é onde ele brota do chão. Vai desaguar no rio Sergipe, que por sua vez, corre para o oceano Atlântico.
O Vale do Cotinguiba possui uma importância histórica para o estado. Cidades como Laranjeiras e Maruim, que fazem parte da região, foram grandes forças econômicas. Além disso, a influência da cultura africana é grande por essas terras. A zona da mata sergipana abriga manifestações como o Reisado, a Chegança, o Lambe-Sujos e Caboclinhos, entre outras.
Por falar em história, Reis, manifestações artísticas e culturais, o Velho Graça, meu bisavô, mesmo que nunca tenha-o conhecido, foi a minha única referência inserida no mundo da arte, de toda a minha família, por parte de pai e de mãe. Ele foi caboclo de reisado, segundo os mais velhos, conhecido em todo o povoado e em outras localidades do vale e de Sergipe.
Sobre o Rio Cotinguiba, o meu primeiro contato aconteceu ainda criança, quando as mães dos meus amigos iam para lavar roupas. Eu sempre conseguia segui-las junto aos meus amigos, para lá fazermos a festa, tomando banho de rio, brincando de esconde-esconde, e se metendo no meio do mato para pegar frutas.
Já grande, quando não acreditava mais no maior sonho da minha vida - ser jogador de futebol - , e quando as mães não mais lavavam roupas tão longe de casa, eu participei de uma peneira no Cotinguiba Esporte Clube. Passei no teste, mas o sonho já havia se desfeito há bastante tempo, enquanto o rio continuava correndo, inerte ao tempo, completo em si mesmo, e na sua pura existência.
Hoje, ao buscar por minhas obscuras raízes afro-brasileiras, descubro que a Areia Branca, sendo a mãe do Cotinguiba, pois lá está a sua nascente, não é considerada na maioria das convenções parte integradora da região do Vale do Cotinguiba.
A cidade está num limiar, instável sobre areia móvel de definições e convenções, entre o agreste e o Vale. Entre o que me foi negado enquanto memória negra e o que poderia ser enquanto reconstrução dessa mesma memória. Entre o trabalho exaustivo do meu pai no corte de cana e a minha entrada na universidade. Entre os entes queridos deixados para morrer e os novos que nascem todos os dias, assim como o rio.
Há algumas semanas, às margens do rio Sergipe, no centro ensolarado de Aracaju, descobri que os africanos sequestrados durante o tráfico branco eram transportados através do rio Sergipe e na sequência pelo rio Cotinguiba para trabalhar nos canaviais da região onde eu me criei.
Penso que o Atlântico é a calunga grande da nossa ancestralidade, mas talvez Areia Branca seja a calunga pequena do meu espírito nostálgico, cheio de banzo e seco de esperanças. Seco também de referências, pois mesmo não sabendo quase nada do meu bisavô, o Velho Graça continua até hoje sendo o único motivo de não me sentir um total extrangeiro no mundo artístico, repleto de nomes tradicionais e de peles brancas, filhos dos donos do Vale.
Crônica de Calunga
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